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Mostrando postagens de junho, 2019

Para Shūdō-shi sama

Porto, 24 de junho de 2019. Honorável Takeda san, espero que esta carta o encontre bem, feliz e em paz. É a primeira vez que escrevo para o outro lado do planeta. Será que existe isso? Tenho dificuldades em escrever esta carta. Primeiramente, porque não sabia como começar. "Caro" é um significante que não traduz devidamente um monge. Porque essa palavra se liga, em minha língua, ao preço. Quero ligá-lo somente ao apreço.  Escrevo para agradecê-lo, escrevo para agradecer-lhe pelas orientações que me tem dado. São como setas amarelas em meu Caminho. Setas amarelas, se o senhor não sabe, são as indicações que os peregrinos encontram no Caminho de Santiago para seguir seu destino de chegar ao túmulo do apóstolo no Campo das Estrelas - em Compostela. Hoje, há uma grande parte de peregrinos que não são mais tocados pela força das setas amarelas. Se encontram nos Guias Michelin, no Google, no Trip Advisor, no Facebook, no Instagram ou no Whatsapp. Muitos, turistas qu...

Para Clóvis

Porto, 13 de junho de 2019. Caro Professor Clóvis de Barros Filho, espero que essa carta o encontre bem, feliz, em paz. Como vai você, querido amigo? "Para trás nem para pegar impulso"? Pois bem. Tenho pensado muito nisso. No que significa o "para trás" e o "para frente". Para um peregrino como eu, essa é uma questão muito própria e importante, acredito. Nossas trocas de mensagens no whatsapp não nos dão devidamente a oportunidade de sentar para refletir, como em uma carta como esta. Sabe? tenho escrito para minha mãe, Cartas de Verdade. Envio e demora 15 dias pra chegar. Ela me responde, e demora 15 dias pra chegar. No entanto, dizem muito muito mais do que os quilos de bytes trocados no dia-a-dia nos telemóveis, nas posagens instagranianas ou nos cutucões facebuquianos. Felizes dos que têm um motivo nas redes sociais, porque tornam peixes seus discursos. É triste quando pescadores lançam a tarrafa e só recolhem latas velhas, mensagens enfer...

Para Vander Lee

Porto, 10 de junho de 2019. Caro amigo. Na estrada, em uma planície amarela coberta de nuvens, que vai de Salamanca ao Porto, escuto-te. Ouço suas músicas, escuto seus discursos, mensagens que atravessam o tempo e o espaço, já inscritas que estão no tempo do Sempre. Penso no Lucas, na Laura, penso que a última vez que nos encontramos foi num boteco vendo o jogo do Galo. Deus lhe levou cedo para meus parâmetros ignorantes e egoístas. Havia tanto ainda para filosofarmos juntos. Tanto a brindar. Sei. Hoje, aqui nesta estrada, no meio do nada, é exatamente o que fazemos. Filosofamos juntos. O lugar mais perto que existe é dentro mesmo... Penso se Laurinha vai ainda ficar amiga de Beatriz. Nossas filhas lindas, tão amadas por nós. Foi bom o curto período de tempo que moramos juntos. Nossos silêncios, respeitosos, curaram boa parte de nossas feridas. Foi uma época difícil pra nós dois. Você cumpriu seu papel e pôde já voltar para os braços do Pai. Eu ainda estou aqui tentando dec...