Para Shūdō-shi sama
Porto, 24 de junho de 2019.
Honorável Takeda san,
espero que esta carta o encontre bem, feliz e em paz. É a primeira vez que escrevo para o outro lado do planeta. Será que existe isso?
Tenho dificuldades em escrever esta carta. Primeiramente, porque não sabia como começar. "Caro" é um significante que não traduz devidamente um monge. Porque essa palavra se liga, em minha língua, ao preço. Quero ligá-lo somente ao apreço.
Escrevo para agradecê-lo, escrevo para agradecer-lhe pelas orientações que me tem dado. São como setas amarelas em meu Caminho. Setas amarelas, se o senhor não sabe, são as indicações que os peregrinos encontram no Caminho de Santiago para seguir seu destino de chegar ao túmulo do apóstolo no Campo das Estrelas - em Compostela. Hoje, há uma grande parte de peregrinos que não são mais tocados pela força das setas amarelas. Se encontram nos Guias Michelin, no Google, no Trip Advisor, no Facebook, no Instagram ou no Whatsapp. Muitos, turistas que descobriram uma maneira de fazer turismo barato pelos padrões europeus, e decidem aproveitar a moda e empreender o Caminho de Santiago, em alguma de suas tantas versões. Há como julgá-los? Sim e não. A própria descrição que fiz é uma espécie de julgamento. Por um lado, atrapalham os peregrinos que foram chamados pelo Caminho. Por outro, têm a oportunidade de, no Caminho, também serem tocados a ponto de ouvirem o chamado enquanto ali estão...
Mas tergiversei. Escrevo para agradecê-lo. Como pode, do outro lado do mundo, me aconselhar dizendo tantas coisas como se me conhecesse há décadas? Nossa amiga comum, Ge Fujii, sequer me conhece pessoalmente e, ainda assim, faz a ponte de dois mundos: o seu, de um monge do Budismo Shingon, e o meu, de um eu qualquer. O eu caminho.
Sim, sou apenas isso: Eu Caminho. Uma busca constante pela edificação da minha própria ponte. Por ela tento passar amores e afetos, dúvidas e dívidas, dádivas, divagações. "Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais", diz a música de Renato Teixeira e Almir Sater. Digo também, e canto, e tenho motivos para isso. Já fiz 3 grandes peregrinações: 830km no Caminho Francês de Santiago, 525km no Caminho Português saindo de Fátima em ano jubilar e a maior delas: 2.500km partindo de Roma, do Vaticano, e percorrendo o Caminho de São Francisco de Assis e unindo-o ao Caminho Francês de Santiago, cruzando Itália, França e Espanha em 88 dias, perdendo 15 kg e caminhando em Paz e Bem.
Sabe, humano monge, eu pensava que ia caminhar apenas por mim e por minha filha. Descobri, ainda no primeiro dia de peregrinação, que eu caminharia por muito mais gente. Já na primeira parada para um café, o primeiro pedido: "caminhe por mim. Estou há anos sem emprego, não posso fazer uma peregrinação como esta, mas você pode: caminhe por mim". Depois desta, e nos 88 dias que se seguiram, alguns pedidos por dia, cada um mais profundo e tocante do que o outro.
Eu, que pensei que carregaria minha cruz por 2.500km, não sabia que tinha sido enviado para carregar quase uma centena delas por três longos meses consecutivos.
Sei, monge humano, que suas palavras tocaram fundo a minha alma. "Você foi chamado a servir - e essa é a tarefa mais importante que alguém pode desejar". Por isso, caminharei em doação. Curioso: Ana, minha companheira, está grávida.
Enquanto há um ser vindo, caminharei servindo.
Quando Beatriz, minha filha de 8 anos, estava ainda dentro da barriga, eu me recolhi para meditar durante 10 dias, entre o natal e o reveillon. Hoje, na mesma fase de gestação de um outro filho (ou filha), irei me recolher para meditar em peregrinação por 53 dias e carregarei várias cruzes para isso. Serão 88 templos, 1.400km e uma certeza: há mar. Um vasto oceano de almas a serem tocadas a cada passo, como círculos do eu-pedra jogado no lago do Universo, que irá se propagar, infinitamente. Se alguém além do monge conhecido como Shūdō-shi sama estiver lendo, até esta palavra, esta carta, é mais um passo que dou, é mais um passo que doo.
Receberei pedidos de oração, pedidos de peregrinação, para os que querem, os que precisam, os que conheço, os que sequer sei que existem. Em Fátima, o padre André disse a mim e a Ana, em nossa peregrinação de 2017: vocês caminham por vocês, por suas famílias, pelos que conhecem e por quem nem imaginam. O senhor, que sabe que Shingon significa, literalmente, "palavra verdade" - ou a 'verdadeira palavra', em uma tradução mais ocidental, conseguirá sentir que a busca pela verdade somente pode ser feita descalça, a pé, nu, ser vindo. Quando eu for, se eu não estiver vindo, não chegarei. Nunca.
Por isso preciso caminhar verdadeiramente no Tempo do Sempre. Só. Caminhar pelos 88 templos na ilha de Shikoku no Japão. Seguindo os passos de Kobo Daishi, Santiago de Compostela, São Francisco de Assis, Jesus Cristo e do meu novo neném: ser-vindo.
Até breve, honorável humano monge humano amigo.
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