Para Beatriz
Porto, 12 de julho de 2019.
Beatriz, Filha amada.
Espero que essa carta a encontre bem, feliz, em paz. Não sei daqui a quantos anos. Mas espero que quando você venha a ler, tenha a grandeza de compreender minhas palavras, no que elas pretendem traduzir.
Por isso vim fazer um doutorado no Porto. Porque somente o curso de Comunicação Social e o mestrado em Tradução não foram suficientes para que eu me fizesse entender. E olha que o que pretendo de você é a compreensão, muito, muito mais que o entendimento.
Sabe, Filha, sou exigente com quem amo. E isso já me fez muito mal. No seu caso, é por ter certeza de sua capacidade. Inteligente, esperta, audaz. Criativa, alegre, introspectiva. Você tem as chaves das portas que acessam lá fora e aqui dentro. Seu Pai só conquistou as chaves de dentro, até hoje.
Enquanto escrevo essa carta para você, escuto Eric Clapton tocar e cantar Over the Rainbow. É uma maravilha, minha Filha. Sei que vai curtir.
Vivo, Filha. Estou vivo. E quero permanecer assim por você, por seu irmãozinho ou irmãzinha que vem chegando, que você esperou e pediu tanto. A vida é tão linda, Beatriz. Por mais que passemos boa parte tentando entendê-la sem sucesso. Quando compreendemos finalmente que seu sentido não passa pela razão, mas pela capacidade de amar, fica mais fácil caminhar. Por mais que eu tenha feito três grandes peregrinações, sinto cada vez mais dificuldade. Estranho, né? Um dia, pensei que seria assim: a cada Caminho, mais descobertas, mais revelações, menos mistérios, mais compreensão. Ou seja: mais fácil ver a vida. Meu engano.
O crescimento espiritual é uma escada ascendente. Quanto mais alto, mais rarefeito o ar. Mais difícil de respirar. Por isso, mais difícil de galgar o próximo degrau. Somos quem sobe. Somos os próprios degraus. Somos a gravidade e a expectativa. Somos, simplesmente, somos simples mente e, imanentes, temos dificuldade de transcender.
Antes de ontem jantamos com o professor Clóvis de Barros Filho, filósofo amigo do Papai, que estava de visita aqui no Porto. Ele me brindou no jantar com uma reflexão profunda sobre Deus. Tenho dúvidas semelhantes às dele.
Um dia, eu encontrei no meio da palavra Deus. E por mais que eu me sinta acolhido, não sou a parte que define. Nem a parte que indica a pluralidade. Eu no miolo, limitado.
Filha, há tanto a calar quanto a dizer.
Por isso, Eu Caminho. Em 2013, caminhei em busca de me aproximar de você. 88 dias, 2.500 km. E meus passos são nessa direção desde então. Esse ano, busco ouvir o monge que me convidou a fazer os 88 Templos Sagrados de Shikoku em peregrinação pela ilha, no Japão, em seus 1.400km. Vou.
Quero crer que irá me apoiar.
Sequer sei se conseguirei me comunicar com você enquanto estiver caminhando, mas aprendi que o lugar mais perto que existe é dentro. Toda vez que caminho, me sinto mais próximo à minha família, a quem amo, a quem acredito que me ama.
Acho lindo ver o mundo por seus olhos. Você, com 8 anos, tem as lentes de amor de que falava Gilberto Gil na letra da música. Crescer é um aprendizado de como tirar os óculos. Quando estamos grandes e pequenos o suficiente, passamos o resto da vida tentando colocá-los novamente. E, difícil, porque quando os tiramos eles têm o nosso tamanho. Depois, não. Ou ficam apertados, e não conseguimos colocá-los, ou frouxos, até colocamos, mas a qualquer sinal de vida, eles caem.
A vida aqui vai bem, Filha. Não tenho dinheiro para lhe visitar no dia dos pais, não consegui lhe trazer no dia do meu aniversário, por mais que já estivesse de férias, mas fazer o quê? Ainda não fui competente o suficiente para resolver isso. Sou tão imperfeito, minha Filha, que me amargo.
Tenho tentado ouvir as lições de Jack, o irlandês que conheci no Caminho em 2013: "se fizer o seu melhor hoje, é o suficiente." Afinal é só o que temos, o hoje.
Há quem passe o tempo olhando para o passado e os erros que deveriam ter ficado para trás. Há quem somente olhe para o futuro e fique sonhando acordado. Eu tenho preferido viver apenas o presente, e tentar o que posso hoje, com amor e afinco, na esperança que um dia Jack tenha mesmo razão. O tempo vai me contar se deu certo em um hoje do futuro.
O "se" ainda é um fantasma que ronda, mas tenho tentado colocá-lo na mesma prateleira do perdão.
Why can't I?, questiona a música. É o que me pergunto todos os dias.
É tanto amor que sinto por você, e esse amor é tão lindo e tão forte, que um dia ele vai vencer toda a distância imposta. É difícil ter escolhido vir para o outro lado do oceano. Mas só o fiz tentando gerar prosperidade para nossa relação. O tempo dirá, secamente.
Como na música, tenho desejado a uma estrela. Todos os dias. Aqui, em vez de pássaros azuis, voam gaivotas. Por isso, imagino que não tem como dar errado. Você não me encontrará no topo das chaminés, nem na estrada de tijolos amarelos. Mas me encontrará dentro de ti, mesmo quando aqui eu não estiver. Porque é onde somos mais juntos. Onde estamos mais pertinho um do outro.
A água salgada que derramo diariamente no Douro tempera o mar que chega até Recife.
É colossal a força do amor. É inexorável o sonho que dividindo multiplicamos.
Tudo começa e termina em nosso abraço.
É aqui, onde você sempre morou e onde sempre vai morar, pra sempre.
Do seu Pai, que lhe ama.
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