Para Vander Lee

Porto, 10 de junho de 2019.



Caro amigo.

Na estrada, em uma planície amarela coberta de nuvens, que vai de Salamanca ao Porto, escuto-te. Ouço suas músicas, escuto seus discursos, mensagens que atravessam o tempo e o espaço, já inscritas que estão no tempo do Sempre.

Penso no Lucas, na Laura, penso que a última vez que nos encontramos foi num boteco vendo o jogo do Galo. Deus lhe levou cedo para meus parâmetros ignorantes e egoístas. Havia tanto ainda para filosofarmos juntos. Tanto a brindar.

Sei. Hoje, aqui nesta estrada, no meio do nada, é exatamente o que fazemos. Filosofamos juntos. O lugar mais perto que existe é dentro mesmo... Penso se Laurinha vai ainda ficar amiga de Beatriz. Nossas filhas lindas, tão amadas por nós. Foi bom o curto período de tempo que moramos juntos. Nossos silêncios, respeitosos, curaram boa parte de nossas feridas. Foi uma época difícil pra nós dois. Você cumpriu seu papel e pôde já voltar para os braços do Pai. Eu ainda estou aqui tentando decifrar a minha missão.

Você me dá pistas.

Acho mesmo que fizemos bem um ao outro. "Morro de saudade e a culpa é sua" é o fragmento que ouço agora. O sol, atrás das nuvens é só um halo. Sei que está lá, apesar de não enxergá-lo. É como nossa convivência depois que partiu. São muitas oliveiras na estrada que "só me servem para lembrar" de Deus. O que sou? Onde vou? Tempo de silêncio para mim e solidão para as ideias que vão aos poucos, como óleo, untando meus dias na Europa.

Há caroço em cada azeitona. Mas o sumo vale toda prensa.

Sigo, macerado pela saudade da minha filha e pela nula perspectiva de abraça-la com meu relógio quebrado.

Você, luz atrás das nuvens. Eu sombra sutil inscrita num asfalto de uma estrada sem nome. Espero curvas. Áspera reta. A faixa descontínua da estrada entra em síncope com o andamento de "Contra o Tempo" e faço segunda voz no refrão. Queria o Tabajara tocando com a gente, o Fernando, aquele meu amigo de Brasília que você conheceu, e tantos camaradas nossos, que sintonizaram alguns sonhos nossos. Tenho pouco a dizer e muito a escutar. Eu e Ela.

Você conhece a história e sofreu comigo.

Silencio-me. Há bifurcações ao longo do Caminho. Há escolhas impossíveis. Variantes que vão a lugar algum. Enquanto conversamos, uma vaquinha pasta, alheia. Há ovelhas, há pássaros. Há vida.

Eu e o Vento vamos continuar por aqui, por enquanto.

Se quiser me mandar um recado, me apareça em sonho. Estou à disposição. Até quando Deus quiser.




Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Para Shūdō-shi sama

Para Beatriz