Para Fábio

Porto, 27 de maio de 2019.


Caro Pe. Fábio,
como vai você, querido? Espero que esta carta o encontre com saúde, equilibrado e em Paz e Bem.

Pensei se eu devia lhe chamar de pai. Também tive ímpeto de lhe chamar de irmão. Na verdade, por mais que eu tenha estado contigo poucas vezes, ouso pedir licença para chamar-lhe querido. Assim como quis chamar-lo de pai e de irmão, quis colocar a vírgula entre "chamar-lhe" e "querido". Porque quando a gente precisa, é bom saber que pode chamar alguém.

Como pai, padre, você ilumina os passos já dados por muita gente. Bem como ilumina os que ainda pretendemos dar. Suas pregações são mais do que atos dos apóstolos. São chamadas filosóficas que se baseiam na bíblia, nos filósofos que você já estudou, em sua experiência de vida, em oração, coração, fé. É um dos importantes papéis paternos. Quando, em 2004, gravei em seu CD, Tom de Minas, a convite do Toninho Marra, o Anthonio, não tive verdadeiramente a oportunidade de me aproximar a ponto de chamá-lo de querido. Sabe, padre Fábio, as pessoas ganham este status quando as preenchemos de significado. Por quê?

Não sei bem a resposta. Tenho palpites. Em minha visão restrita, adicionamos temperos nas pessoas quando as avaliamos. É um pouco assim: a gente conhece, e julga. Depois que julga, rotula. É exatamente o que Jesus não nos ensinou. Penso se não deveríamos chamar todos de queridos, mesmo sem julgar, mesmo sem conhecer, mas não um querido ou querida destituído de significado. Um significante vazio, que somente carrega a forma, não a essência. Queria chamar todos e chamar a todos de "queridos", porque irmãos. Foi o segundo ímpeto ao querer chamá-lo. 

Curioso: tristemente, tive o ímpeto da imagem de temperarmos as pessoas como se fôssemos comê-las. Sem conotação sexual, é claro, comê-las no sentido de degustá-las como alimento. Se, por um lado, cabe a imagem da nutrição, ou seja, do bem que as pessoas podem nos fazer, cabe a triste imagem de usá-las, como temos presenciado no mundo consumista atual. As relações, e o que advém daí, com sua maluca paleta de cores ou sabores, irmão-pai.

Irmão... Irmão! Imediatamente me vem a imagem de São Francisco e do dito "irmão-sol", "irmã-lua"! Que lindo! Irmão é aquele, que mesmo quando ele só te enche o raio do saco (desculpa), você ama. Talvez porque saiba, sem saber, que amor independe de ações, atitudes, acertos, erros. Independe até de sangue. 

Ou da gente...

Vivo de vontade de querer encontrá-lo, não em um restaurante self-service em BH, como na última vez que lhe encontrei, ou numa festa junina, a última vez que lhe vi pessoalmente. Mas queria para caminhar e trocar algumas impressões ou cicatrizes. Tenho vontade de lhe contar sobre a primeira peregrinação que fiz em 2009, no Caminho Francês de Santiago, quando percorri 830km a pé com nosso amigo em comum, Ramiro. Este, sim, um irmão, filósofo, pai, filho, amigo, tudo que um ser humano pode ser, em sua versão mais bonita e cativante. E lhe ouvir. Ouvir o que você acha do que eu achei. Da vez que fiz 520km a pé com a minha querida Ana de Fátima a Santiago, em ano jubilar. Queria dizer porquê saí a pé de Roma e caminhei 2.500 km em 88 dias até Santiago, passando por Assis e Chiusi della Verna, revivendo os passos de São Francisco e São Bernardo, em luta silenciosa contra a alienação parental. Quem, ao final, caminha 2.500 km a pé para ir buscar sua filha, se não for, verdadeiramente, Pai? Queria contar quantas vezes cai no deserto da estrada, quantas vezes me levantei, quanto brindei e quanto chorei. Queria que visse nos meus olhos o que não consigo colocar no livro que escrevo há 6 anos sobre cada passo. Queria falar do meu encontro com Deus no banheiro de um albergue de peregrinos em uma madrugada gelada. Mas acho que terei que enviar o livro e rogar para que leia, caso o receba.

Descobri, irmão, pai, querido Pe. Fábio, que "qualquer distância se faz com dois passos: o Primeiro e o Próximo". 

E coloco o Primeiro e o Próximo com letras maiúsculas, desde que alcunhei esta frase, por entender que falo de Deus. E do Próximo de que nos fala (verbo no presente) Jesus, mesmo. Não só todo o fundamento filosófico do primeiro e do próximo contido nessas palavras, sabe? Sei bem que "con pan e vino se hace el camino", como bendizem os espanhóis. Sei de distâncias. Sei, sobretudo, que "o lugar mais perto que existe é dentro", como eu mesmo digo. 

Tenho tanto a calar (ou a confessar), que gostaria muito de caminhar um dia ao seu lado. 

Sabe, Padre Fábio, tive a oportunidade de ler alguns de seus escritos, ver inúmeras entrevistas, muitas homilias, sua humana, sagrada e profana participação nas redes sociais. Eu, como milhares, podemos pedir para lhe chamarmos de querido. Mesmo depois de, como humano julgá-lo, lhe trato como irmão. Nem por escolha, mas por formação. Meus pais são símbolos vivos de fé e amor-ao-próximo. Também, claro, por escolha e por admiração. Quão bom é o amor-escolha, não? Mesmo que ele se aproxime mais dos homens e da beleza da humanidade, que tantas vezes não reflete a sublime divindade...

Hoje, vivo no Porto. Vim fazer um doutoramento em Tradução, nas Letras da Universidade do Porto. Tradução não de uma língua para outra, mas de um sistema de linguagem para outro: tradução intersemiótica. Não conte para ninguém, sabe, Pe. Fábio, mas o fundo do meu trabalho é de algum modo tentar a remitificação da Torre de Babel. Uma que todos possam falar a mesma língua sem falar a mesma língua. Quem sabe com a Palavra de Deus? Já que Ele se fez Verbo e habitou entre nós, sonhei conjugá-lo. Mas não conte nada disso para a Academia. Ninguém iria entender.

Amor é assim. Ninguém entende.

Aliás, Deus é pai, é mãe. Tive um encontro com Ele no meu Caminho e agora me preparo para encontrá-lo do outro lado do mundo, em mais uma grande peregrinação na ilha de Shikoku, perfazendo 1.400km nos passos dados por Kūkai (空海) ou Kōbō-Daishi, (弘法大師) o monge, o poeta, o pai do Budismo Shingon. Shingon, que significa escola da palavra verdadeira, para um tradutor, um pai fiel, quer dizer (ou calar) muita coisa, sabe? Principalmente quando estou a um passo de ser presenteado novamente com um novo filho. Ou nova filha, ainda não sei. A Ana que caminhou comigo de Fátima está grávida.

Sei que, possivelmente, sequer lerá essa carta, Pe Fábio. A esperança de que responda, então, não cabe em mim tê-la. É grande demais. Antes de despedir-me gostaria somente de deixar registrado aqui nessas linhas minha admiração por sua coragem. De ser quem é, da maneira como é, enfrentando a mídia, as críticas, as alcunhas de "padre gato", "padre blogueiro" e essas denominações fenômenos dos tempos formais em que vivemos, sendo honesto consigo, com suas crenças, com sua fé, com o amor a Deus e aos homens, com a dedicação à arte, ao alcance da palavra de um jeito Salesiano, inclusive, e por demonstrar que além de Pai, com letra maiúscula, você é Filho. 

Peço a Deus que lhe ilumine, lhe encha de afetos e lhe faça continuar cheio de entusiasmo, no sentido etimológico da palavra, para prosseguir em seu lindo pastoreio pelos campos do Senhor. É o que desejo, verdadeiramente, e de coração. Paz e Bem. Sua bênção. 

Bê ijo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Para Vander Lee

Para Shūdō-shi sama

Para Beatriz