Para Vanderlei
Porto, 16 de maio de 2019.
Caro amigo das letras e dos silêncios,
como anda? Espero que esta carta o encontre bem, inteiro e com saúde.
Aqui, do outro lado do mar, terra firme. Aportei em oito do oito de dois mil e dezoito, não por acaso. Foi necessário partir. Finalmente, ouço sua pró vocação e escrevo. Os silêncios são tantos que não sei por onde começar. Desde o mestrado, na minha passagem por Florianópolis que parei de escrever. Deixei de alimentar a poesia para não sofrer ou sonhar. Os sonhos e os sofrimentos movem os homens e há momentos em que precisamos simplesmente parar. Wu-wei.
Quantas saudades tenho. Não cabem entre letras. Entrelaços. Nós de marinheiro, muitos nós. Milhares de milhas. As distâncias produzem silêncios. Dentro ou fora de casa, dentro ou fora da gente. Há muito não me olho no espelho. Desde pequeno, minha mãe dizia que quem olha muito no espelho enxerga o capeta. Há um capeta no espelho de cada um. Por isso, olho para fora. Para enxergar as belezas do mundo e me esquecer das minhas tantas feiuras. Olho as ruas, vejo as ruas, noto as pedras das calçadas, seus contornos. A sombra que produzem no encontro com outras pedras, as cicatrizes que são o encontro de umas com as outras. Estou falando das pedras.
Aqui, no Além-mar, a lenha do amor que queima em forma de saudade. Sabe quantas cartas recebi de meus tantos e tantos amigos desde que aqui cheguei? Nenhuma. Minha mãe, sim, foi a primeira e única a escrever-me. Temos escrito constantemente desde que cheguei em agosto do ano passado. Já se passaram dez meses. As cartas de minha mãe demoram quinze dias para chegar. As minhas respostas também. Quinze dias para ir, quinze dias para voltar. É um pêndulo grande, forte. Quando chega, traz a força do tempo e vem com um poder infinito. Cada palavra, cada frase, todo parágrafo vem com a força do vento que atravessa o mar, das ondas que cobrem tudo o que tem pela frente. A letra da minha mãe é a impressão pessoal da carne. Presença.
Cheguei no verão europeu. Passei pelo outono, pelo inverno. Vi as folhas amarelando, avermelhando, caindo. Vi as árvores sem folha alguma enquanto eu me apegava às folhas que recebi pelo correio. Rangi dentes. Brindei vinho. Eu vinho. E me encontro só, cheio de família. Os tempos não estão para comunicações antigas como as nossas. As pessoas não querem mais escutar umas às outras. Escrever, então, nem se fala. Escreve. Escreve pra mim.
Escreve para mim que não me tardo. Me atordoo. Aliás, não responda. Pergunte. Seu jeito socrático de ser sempre me encantou e sempre me tirou do canto. Caminho muito por sua causa, por nossa causa, as humanidades todas desveladas.
Enquanto mar houver, ouvirei. Ou virei a ver com o mar, buscando sua garrafa, os textos que já escreveu em mim, os textos todos, tantos, os que ainda quer escrever, os a ler.
Despeço momentaneamente e peço, encarecidamente, não se esqueça.
Bê ijo.
Emocionante e tão seu, tão tanto que não há tamanho que caiba dentro dessa grandeza. Esquecer é um verbo que não existe! Obrigado, meu Poeta!
ResponderExcluirAh, as palavras...
ResponderExcluirLove you!