Para Vô Marú
Porto, 01 de setembro de 2019.
Querido Vô Marú,
espero que essa carta o encontre. Sei que está bem e em paz. Não me lembro o ano que você fez a passagem. Sei que eu era muito pequeno ainda. Mesmo assim, há marcas suas, indeléveis, no meu jeito, na minha memória, nas lembranças familiares, no meu pai, na minha irmã, o Vô Marú que continua a caminhar comigo.
Com muito pouca idade, minha filha me ensinou que o lugar mais perto que existe é dentro. E isso fez toda a diferença.
Em mim, trago nosso jeito boêmio, o trejeito de colocar um paninho para comer e bebericar um tira-gosto, o gosto por um sabonete novinho, o sem-jeito de ver a vida de outra forma, senão pelo lado poético. Não sei se gostaria dos meus poemas. Você se foi antes das minhas primeiras incursões neste tema e sei que não gostava de Drummond. As pedras do caminho dele seguiam a ordem de outro tempo, não o do seu.
Curioso isso, escrevo justamente para falar sobre o Tempo.
Sabe, Vô, não sinto falta do que não vivi com você. Não há um brinde que eu faça que não honre, em memória, o senhor e meu outro avô, o Vovô Hélio. Brindo, olho para os céus e me disponho a abrir essa janela do Tempoespaço, que me conecta verdadeiramente a vocês. Acredite, as pessoas não compreendem o Tempo. A linha do tempo, esta ilação que conforma a humanidade para trabalhar, tirar férias, ir dormir, marcar o ano, cantar parabéns e horas de trabalho são "perversas" - em seu sentido etimológico do "caminho errado". Há povos que acreditam que o passado está à nossa frente. E que caminhamos de costas rumo ao futuro. Acho muito mais próprio, se for para pensarmos na linha temporal que usam para nos amarrar a todo momento.
No entanto, há uma linha temporal muito mais sutil. É esta linha, a do brinde.
Uma mágica linha que une duas coisas que não existem a uma que existe: passado, futuro e o nosso presente.
Se lembra, Vô, que quando eu era pequeno o senhor me chamava, carinhosamente de "bodinho"?
Pois bem, as coisas começam a fazer sentido para mim: a linha sutil, que toda vez me encanta quando brindo, é a mesma linha que vejo enlaçando o presente e me trazendo sua profecia. Anteontem, recebi um recado do monge Shudo-shi Sama que me disse que eu iria me encontrar, algumas vezes, em Shikoku, durante a minha peregrinação, com um KAMOSHIKA (ニホンカモシカ), uma espécie de antílope, um caprino que é símbolo nacional do Japão, que também é conhecido como um "animal fantasma". Segundo ele, Maria, minha filha caçula, vai nascer sob a égide deste animal, e que eu sabia a relação que eu já tinha com este animal poderoso. Nessa mesma linha sutil, no portal do tempo, me encontrei sozinho em uma floresta na Itália com os antílopes daquela região, próxima a Chiusi Della Verna, onde São Francisco recebeu as chagas nas mãos, como Jesus Cristo. Essas linhas invisíveis passam o portal do Tempo sem que saibamos, sem que compreendamos. Mas a conexão está lá. Basta desvelar os olhos. O cervo gigantesco que passou voando na minha frente no meio da floresta me liga a você, Vô, assim como os encontros que teremos juntos com o animal que gerou o símbolo de Capricórnio.
Tomei a liberdade de colocar a foto para que veja como estou ficando cada vez mais parecido com ele com minha barba branca. Esta, feita pela fotógrafa brasileira mais japonesa que conheço, a Ge Fujii, minha amiga que tem fotos maravilhosas e tem revelado para mim o Japão que procuro ver. Esta, ela fez para uma uma ONG que cuida de animais ameaçados de extinção. Não é à toa que aos nove anos de idade tive a intuição, ou me enlacei à linha do Tempo que me levaria ao Japão: pedi a minha mãe para entrar no Karatê, sem que conhecesse nenhum praticante. A faixa-preta, que viria muitos anos depois, após 3 convites para que eu fizesse exame, só me fala do compromisso que norteia o dojo kun, a filosofia do Karateca.
No recado do Monge, um alerta: devo ter muito cuidado, pois vou me encontrar com os demônios pessoais durante o Caminho de Shikoku. Não é à toa, a ilha é habitada por dragões.
Mas sou amigo de São Jorge. Ainda em 2013, logo antes de começar a caminhada, Serafim Arcanja me levou a 1.300 metros de altitude na Capadócia e tive um encontro fantástico com São Jorge, quem me ensinou a domar dragões. Estarei pronto para o bom combate.
Disse o Monge para eu me preparar: não vou dizer aqui o motivo. Mas caso ele se confirme, volto a escrever... Prometo que digo nos vídeos que farei, durante o percurso.
Deseje-me sorte, Vô Marú.
Já que não pude fazer em sua vida, será esta, desta forma, a primeira caçada que farei com o senhor, armado das "mãos vazias" - que é o significado de karatê. E não irei em busca de matar o animal, mas de que, no encontro, o animal sagrado viva em mim para todo o tempo do sempre.
Amorosamente, do seu neto,

Que lindeza Bê.
ResponderExcluirQue lindo!
ResponderExcluirBom Caminho.
Caminhamos juntos.