Para Nestor

Porto, 04 de dezembro de 2019.

Querido pai,

espero que esta carta o encontre bem, tranquilo e em paz. Sei que é difícil. Sua irreverência e inquietude filosófica tendem sempre ao desequilíbrio, tanto na parte maravilhosa quanto na parte complexa que existe nessa palavra.
É justamente por causa do desequilíbrio que nos movemos. A cada passo, nos desequilibramos para colocarmos o apoio do pêndulo na frente e fazermos avançar. Mas sobre isso devo tratar com mais cuidado. Não em uma carta curta, num respiro desequilibrado da minha sã loucura.
Aprendi nos seus desequilíbrios a audácia do Manoel. Escrevo porque está quase na hora. Vou ser pai novamente e, ato contínuo, avalio-me como pai, olho no espelho de nossa relação, vejo a parede pintada do tempo, que retrata flores azuis com miolos amarelos em Alcobaça, instrumentos musicais no canto que ficava o piano, os veios da madeira da Matinha, os musgos da Almerinda. Há paredes onde nem imaginamos.
Conseguiremos transpô-las?
Hoje, a lâmpada da sala apagou minha expectativa e, no mau contato, desliguei-a e acendi o abajur de pedra de sal do Himalaia que fica na mesinha azul ao lado do sofá. À noite, sozinho, silenciei a casa.
E ouvi o barulho do gás que saia do liquinho que acendíamos na Matinha.
Penso Beatriz. Penso Maria. Respiro as duas.
E me vejo no Tempo do Sempre, com as duas, no silêncio do não haver luz, nem para ligar uma geladeira, quando dezenove horas já dava vontade de deitar, ouvindo curiango sofrer sozinho como eu, em busca de um eco ou de uma resposta.
Fiquei sem as duas.
Deus é bom. Hoje tenho as duas. Meu eco e minha resposta.
Sei que irão pendendo nessa toada, desequilibrando e andando, desequilibrandando e me ensinando, cada hora uma, uma e outra coisa, duas, umas, desequilibradando e me sacudindo, silenciando-me e me ensinando a escutar. Mais.
A vida é cheia.
Nos vazios de nós, nossos preenchimentos criativos.
Uma barriga, uma resposta, um caminho, muitas perguntas, gaiolas e portinholas.
Do Japão, o rouxinol deixou o anzol para trás. Blackbird voou com o vento. Antes, as curvas, todas da estrada, me levaram à porta da casa de minha primeira filha. Hoje, eu curvo. Eu curva.
Na espiral da vida, o avô, o pai, o menino brincam de estradas diferentes, sendo ao mesmo, Tempo. Iguais.

Do seu filho pai, que te netas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Para Vander Lee

Para Shūdō-shi sama

Para Beatriz