Para Bernardo

 Cabo de Santo Agostinho, 18 de janeiro de 2021.


Querido eu mesmo,

espero que essa carta o encontre bem, em paz. 

Sei que não é simples. Não, tendo que se despedir amanhã da sua filha de quase 10 anos, obrigado a comemorar com ela seus 10 anos mais de um mês antes de seu aniversário por causa dessa confusão de COVID, mesmo tendo comprado passagem pra voltar pra casa depois do aniversário dela. Triste estar aqui no Brasil e não voltar a vê-la mesmo tendo planejado tudo para que isso acontecesse. 

Pena não ter podido ficar mais com ela. A matemática da guarda compartilhada certamente não corrobora com 15 dias versus 350 dias. Sem falar nos 15 dias sem direito a estar sozinho com ela, como manda a relação pai e filha. Um dia isso será colocado em uma mesa. E as fatias serão proporcionais. Mas a vida não é assim. Não é justa, não é fácil, é cruel. Ainda assim, vale a pena. 

Um sorriso vale a pena. Um olhar, tantas vezes em 15 dias ter ouvido a espontaneidade dos "eu te amo", como se suplicassem a escuta ou o socorro: você sabe, né? Fique tranquilo que nossa hora vai chegar. Hoje, quando a noite acorda os medos, sinto pânico de não conseguir esperar. É quando inacreditavelmente me dá medo da morte. De não conseguir esperar. Da última coisa que eu levar em mente tenha sido o olhar de bala de caramelo por trás da máscara facial com temas de bichinhos. As máscaras dos adultos são mais transparentes. Expõe temas como inveja, medo, ódio, avareza, ganância, e por aí vai. Os olhos de minha filha mais velha são os olhos de uma menininha que me ama de verdade. E minha garganta dá um nó, tentando justificar em palavras o que sequer está escrito em um veredito forjado a chumbo grosso.

Do mar, de onde estou, quero navegar. Mas quero colocar minhas filhas na embarcação e seguir conforme o amigo vento de tocar. Minha filha sabe: sou amigo do Vento. Sou amigo do Bem-te-vi. Sou amigo do Mar. E ela, de Peixes, não tem problema algum de enfrentar correntezas. Eu não saberia dizer mais sobre o que me aflige agora, senão meu medo de não ser reconhecido também pelas duas. 

Quando desde cedo eu respondia: "eu vim ao mundo para ser pai", eu sabia o que estava dizendo. Somente construí mal a frase. Digo sim ao mundo, enquanto minhas filhas me gestam o pai que elas precisam reconhecer.

Quero crer que minha missão só está começando. E que terei forças do tamanho de cada um dos desafios que ainda estão por vir. Respirar amor é viver em paz com suas capacidades. Eu sou capaz de amar. Ainda mais e mais do que juntas elas um dia podem sonhar. Tenho dó do número de estrelas perto da medida do tamanho do meu Amor por elas.

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